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17 de outubro de 2026 | 19:29

PM que matou mulher armada com faca em São Paulo ganha liberdade provisória; delegado aponta excesso no disparo, veja o momento que a mulher morre

Redação Zh – O soldado da Polícia Militar André Coelho Maximo da Costa, que atirou e matou Camila Pereira da Silva, de 32 anos, durante uma ocorrência em Pirituba, na Zona Norte de São Paulo, foi colocado em liberdade provisória pela Justiça nesta sexta-feira (16-out), após passar por audiência de custódia. O policial havia sido preso em flagrante na quinta-feira (15-out).

A defesa do PM classificou a prisão como uma medida de “cunho político e eleitoreiro”. O caso, registrado por uma câmera de segurança, levantou questionamentos sobre o uso progressivo da força e a conduta dos agentes durante abordagens envolvendo pessoas em situações de crise.

Veja o vídeo

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Camila estava com uma faca quando se aproximou de três policiais militares. As imagens mostram a mulher caminhando em direção à equipe na Rua Coronel José Rufino Freire. Poucos segundos depois, o soldado Maximo efetua um disparo que atinge a região torácica da vítima, que morreu no local. Ela deixou duas filhas pequenas.

Delegado aponta reação desproporcional

No boletim de ocorrência, o delegado João Pedro Murgolo avaliou que a reação do policial foi desproporcional e que não houve emprego progressivo da força antes do disparo fatal.

Segundo o delegado, as imagens não mostram Camila fazendo um movimento de ataque no momento em que foi atingida. Ele destacou que a mulher não teria levantado o braço para golpear os policiais nem avançado repentinamente contra o agente.

Na avaliação da autoridade policial, o simples fato de uma pessoa se deslocar com uma faca nas mãos, mantendo os braços baixos e sem realizar um gesto ofensivo, não seria suficiente, por si só, para caracterizar uma agressão iminente que justificasse o uso de força letal.

A conclusão integra os elementos que deverão ser analisados durante a investigação do caso.

Como começou a ocorrência

Antes do disparo, três policiais militares da Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas (Rocam) realizavam patrulhamento quando uma das motocicletas apresentou um problema mecânico. A equipe parou em uma oficina para verificar a pane.

No local, o ex-companheiro de Camila procurou os policiais e pediu ajuda. Ele relatou que a mulher estaria atrás dele, armada com uma faca, e que tentava matá-lo. Pouco depois, Camila chegou ao endereço carregando a arma branca.

Em seu interrogatório, o soldado Maximo afirmou que os policiais deram ordens repetidas para que a mulher largasse a faca e interrompesse a aproximação. Segundo sua versão, a equipe começou a recuar para manter uma distância segura.

O PM declarou que, durante o recuo, esbarrou em um caminhão estacionado, o que teria limitado sua movimentação. Ele também alegou que o intenso fluxo de veículos na rua dificultava a possibilidade de se afastar.

O policial afirmou ter entendido que estava diante de um perigo iminente e que não havia outra alternativa segura para impedir a aproximação da mulher. Por isso, segundo seu depoimento, efetuou um único disparo para interromper a ameaça que acreditava existir naquele momento.

Ex-companheiro relatou ameaças; tia falou sobre problemas de saúde

Em depoimento à Polícia Civil, o ex-companheiro de Camila afirmou que os dois estavam separados havia cerca de cinco meses e que o relacionamento era marcado por conflitos. Segundo ele, a mulher não teria aceitado o fim da relação.

No dia da ocorrência, ele disse ter encontrado Camila nas proximidades do portão de sua casa. Mais tarde, ao sair do imóvel, teria sido surpreendido pela ex-companheira, que, segundo seu relato, estava com uma faca e passou a ameaçá-lo.

A tia da vítima também prestou depoimento e relatou que o relacionamento era marcado por desentendimentos, separações e reconciliações. Para a familiar, o desgaste emocional provocado pelos conflitos teria contribuído para agravar a situação vivida por Camila.

A tia afirmou ainda que a sobrinha enfrentava problemas graves de saúde havia aproximadamente cinco anos e aguardava um transplante de fígado havia cerca de dois anos. Segundo ela, Camila precisava comparecer semanalmente ao hospital para acompanhamento e tratamento e estava impossibilitada de trabalhar devido à condição clínica.

A familiar declarou não ter conhecimento de diagnóstico de transtorno psiquiátrico ou doença mental, nem de acompanhamento médico nessa área.

Ela também relatou que Camila estaria incomodada com a atual companheira do ex-parceiro, a quem atribuía provocações e ofensas. A tia acredita que esse contexto pode ter contribuído para que a sobrinha procurasse o endereço do ex-companheiro.

Camila foi descrita pela familiar como uma mãe dedicada, que mantinha fortes vínculos afetivos com as duas filhas pequenas.

Defesa classifica prisão como política e eleitoreira

O advogado Mauro Ribas, responsável pela defesa do soldado André Coelho Maximo da Costa, afirmou que a prisão em flagrante teve motivação “política e eleitoreira”.

Segundo a defesa, o policial seguiu os procedimentos operacionais da corporação e acionou a Central de Operações da Polícia (COP) desde o início da ocorrência. O advogado sustenta que o disparo só foi efetuado quando o agente já não teria condições de continuar recuando.

A defesa também alegou que a prisão provocou comoção e instabilidade entre policiais militares. De acordo com Ribas, integrantes da corporação interpretaram a medida como um sinal de falta de apoio por parte do governo estadual e da própria instituição.

A Justiça, após a audiência de custódia realizada na sexta-feira (16), concedeu liberdade provisória ao policial. A decisão não encerra a investigação nem representa uma conclusão definitiva sobre a legalidade do disparo.

SSP afirma que caso será investigado

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) afirmou que não tolera desvios de conduta ou ações que contrariem os princípios da Polícia Militar, cuja missão inclui proteger a população e preservar vidas.

Segundo a pasta, o policial foi preso em flagrante e encaminhado ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), responsável pela investigação criminal. Também foi instaurado um Inquérito Policial Militar (IPM), com acompanhamento da Corregedoria da PM.

A secretaria informou ainda que o local foi preservado até a chegada das equipes do Instituto de Criminalística e do Instituto Médico Legal (IML). A arma utilizada pelo agente foi apreendida e será submetida à perícia.

O policial está custodiado no Presídio Militar Romão Gomes, conforme informado pela secretaria.

Caso reacende debate sobre uso da força policial

A morte de Camila ocorre em meio à repercussão de outras duas ocorrências envolvendo policiais militares e homens que, segundo familiares e registros dos casos, apresentavam sinais de crises emocionais ou de saúde mental.

Em um intervalo de sete dias, agentes dispararam 69 vezes contra dois homens em situações distintas na capital paulista.

No dia 3 de outubro, Antonio Nunes Batista, de 40 anos, morreu após ser atingido por disparos durante uma ocorrência na Vila Dionísia, na Zona Norte de São Paulo. Segundo as informações divulgadas, os policiais efetuaram 24 tiros.

Já em 10 de outubro, Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, morreu em Moema, na Zona Sul da capital, após policiais dispararem 45 vezes.

Os dois episódios também são investigados separadamente pela Polícia Civil, que apura se os agentes agiram em legítima defesa ou se houve excesso no uso da força.

Especialistas em segurança pública ouvidos em reportagens sobre os casos apontaram a necessidade de avaliar os protocolos de abordagem, o treinamento dos policiais e a aplicação do uso progressivo da força, sobretudo em situações que envolvem pessoas em crise.

As três ocorrências ampliaram o debate sobre a preparação das forças de segurança para lidar com situações de risco sem recorrer imediatamente a disparos letais.

As investigações deverão esclarecer as circunstâncias de cada episódio e determinar se houve irregularidades na atuação dos policiais envolvidos.

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